Tannat, Uruguai e Parrilla

“No que se refere a vinho, sempre recomendo que se joguem fora tabelas de safras e manuais investindo num saca-rolhas. Vinho se conhece mesmo é bebendo!” – Alexis Lichine

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Fonte: http://blog.phileaswineclub.com/

Introdução

Após termos falado sobre Chile, Argentina e Estados Unidos, o próximo destino de nossa viagem será o Uruguai. Vimos também que praticamente todo país do novo mundo possui uma uva emblemática: a Zinfandel nos Estados Unidos, a Malbec na Argentina e a Carmenère (falaremos sobre ela ainda) no Chile. A casta que representa o Uruguai é essa magnífica uva que iremos tratar nesse post: Tannat.

História

Na história das uvas vimos que a Malbec era conhecida como o patinho feio e recebeu seu nome devido ao seu gosto ruim. A tannat por sua vez pode ser considerada como a irmã da Malbec, pois ela também era rejeitada na França devido à alta quantidade de taninos. Muitas pessoas acham que a Tannat é originiária do Uruguai mas ela é da região de Madiran, ao sul da França.

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Fonte: http://accents-terroirs.com/

Acredita-se que a Tannat foi trazida para o Uruguai por imigrantes bascos no século XIX. Por volta do ano de 1870 um imigrante basco, Pascual Harriague, formou os primeiros vinhedos de Tannat em Salto, noroeste do país. Hoje, o Uruguai já produz vinhos dessa uva com qualidade igual a dos vinhos chilenos, argentinos, franceses, etc.

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Fonte: http://viveruruguay.com/

Características da Tannat

A tannat é uma casta muito singular pois ela se encontra provavelmente como a uva vinífera conhecida mais tânica. Vimos no segundo post que os taninos produzem uma adstringência grande num vinho e, caso não sejam tratados, amargor:

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Fonte: http://winefolly.com/

Tem um ditado que diz que para tomar um vinho dessa possante uva é necessário estar munido de um martelo e uma bigorna para poder aguentar a “pancada” desses vinhos tão austeros e rascantes mas, ao mesmo tempo, estruturados, encorpados e intensos.

Ela também faz parte da família dos vinhos tintos frutados, ou seja: vai apresentar vários dos aromas presentes nos vinhos que já vimos por aqui como o cabernet-sauvignon, malbec, zinfandel, etc.

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Fonte: http://br.pinterest.com

Aromas claros de cassis, cerejas, ameixas, goiaba, amora, mirtillo. Aromas secundários de côco, baunilha e tabaco devido ao envelhecimento no barril de carvalho.

Harmonização

Conforme falei no post da malbec, quando se pensa em churrasco logo surge a idéia de combiná-lo com a uva malbec. Não tiro nenhuma razão desse pensamento, mas acredito que ele surge também devido ao pouco conhecimento da uva Tannat, pois ela é perfeita com gordura devido aos seus fortes taninos. Mais especificamente, a perfeição da harmonização é alcançada junto com o famoso churrasco Uruguaio: Parrilla (Pronuncia-se Parrija no Uruguai). Ele consiste basicamente num conjunto de várias carnes, verduras e miúdos feitos na lenha ao mesmo tempo.

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Fonte:http://www.osul.com.br/

Um breve comentário: antes que alguém me critique dizendo que minha Parrilla é incompleta, vou explicar de antemão que a farei apenas com as carnes e legumes que me apetecem e usarei carvão ao invés de lenha por falta de churrasqueira específica para o uso dela. Numa Parrilla autêntica feita no Uruguai teríamos mais opções de carnes e miúdos: pimentão verde, amarelo, vermelho, chorizo (linguiça preta feita do sangue do porco), intestino de boi, etc.

Bife de ancho e de chorizo:

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Picanha:

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Bife de tira angus:

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Apenas colocaremos sal e pimenta:

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Para a parrilha, iremos usar também legumes:

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Para temperar os legumes iremos utilizar o molho chimi-churri:

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Para prepará-lo, usaremos duas colheres de sopa de água, duas colheres de sopa de vinagre, duas colheres de sopa de azeite e sal.

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Enquanto esperamos a parrilla, o aperitivo será com a cerveja Budweiser e amendoim. Ela é uma excelente cerveja apesar de não ser puro malte (ser feita apenas com cevada, seguir a lei de pureza de 1516 da Baviera).

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Vinho de escolha: Río de los Pájaros, família Pisano 2013

Na opinião de especialistas do vinho como Jancis Robinson e Steven Spurrier, a bodega Pisano é a melhor produtora do Uruguai e produz os melhores vinhos Tannat do mundo. Também ele não é um vinho tão caro (na faixa de R$ 70 reais). Logo nossa escolha será por ele.

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Conclusão

Realmente o vinho apresenta uma qualidade muito acima da média com aromas complexos como o da madeira comprovando o fato de que o Uruguay também produz vinhos tops. A minha opinião pessoal sobre a tannat é que ela só combina mesmo com muita gordura, devido à sua “pancada” de taninos. É um vinho bem austero, difícil de tomar, o exato oposto da primitivo, por exemplo. Gostei da experiência e da combinação mas definitivamente a tannat não faz parte das minhas uvas preferidas.

 

Zinfandel, Primitivo e Costelinha do Outback

“O vinho é prova constante de que Deus nos ama e nos deseja ver felizes”- Benjamin Franklin

Embora existam mais de 5000 espécies catalogadas de uvas viníferas (Vitis Vinifera), é fato claro que todo apreciador de vinhos possui a sua uva preferida. E comigo não é diferente, pois a uva tinta que mais aprecio é a Primitivo, a qual é muito famosa na Itália.

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Mas o post atual será para falarmos sobre sua versão americana: a Zinfandel.

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Durante muito tempo acreditou-se que elas eram uvas distintas, mas testes demonstraram tratar-se da mesma uva. Porém, como já falei nos posts anteriores, uma Malbec na França não produz o mesmo vinho que uma Malbec na Argentina e assim é com a Zinfandel e a Primitivo: ambas produzem vinhos espetaculares porém com características únicas.

Breve história da viticultura americana

A história da viticultura americana tem início na era da corrida do ouro, onde vários imigrantes foram em busca do metal precioso e, com eles, trouxeram diversas uvas. Ninguém sabe ao certo como e quando a zinfandel chegou aos EUA, mas acredita-se que foi nesta época. Tudo ia às mil maravilhas até os EUA estabelecerem a lei seca (1920 a 1933) proibindo qualquer tipo de bebida alcóolica no país. Foi aí que todas as vinícolas foram destruídas.

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Foi nesta época que surgiu um dos primeiros gangsters da história do mundo e o maior da história americana: Al Capone. Muito antes de Pablo Escobar e El Chapo, ele foi o responsável por contrabandear álcool para os EUA e chefiar a maior quadrilha já conhecida para a época até ser preso acusado de sonegar imposto de renda por vários anos.

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Quando a lei seca é derrubada, lentamente a cultura vinícola volta a renascer a passos muito lentos e isso persiste até a década de 60 com a participação de um homem: Robert Mondavi.

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Esse é aquele que pode ser considerado como o Steve Jobs do mundo do vinho, pois poucas personalidades no mundo foram tão expressivas quanto ele! Robert Mondavi começou no mundo do vinho na empresa da família, com o pai e o irmão. Assim como todos os produtores norte-americanos da época, o foco era na produção de vinhos de garrafão, de baixa qualidade. Após uma viagem pela Europa visitando vinícolas, ele voltou para casa decidido a transformar a produção da família com o seguinte bordão: “Vou produzir um vinho com uma qualidade tão absurda que irá derrotar todos os franceses!”, algo impensável na Napa Valley dos anos 1960. As diferenças de objetivo levaram a um racha com a família, e Robert Mondavi abriu sua própria empresa em 1966, quando ele tinha 53 anos de idade.

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Abaixo temos imagens da primeira safra:

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1976 é o ano mais importante da vinicultura americana pois foi quando houve o julgamento de paris (The Paris Wine Tasting of 1976; vale a pena conferir o filme que está no netflix bottle shock), que foi uma competição organizada em Paris em que apenas alguns dos maiores sommeliers franceses participaram de um teste cego organizado entre vinhos franceses e americanos. Pela primeira vez em toda a história do mundo os vinhos americanos tiraram em primeiro lugar, tanto na categoria de brancos quanto na de tintos, quebrando assim o dito de que apenas na França se produzia bons vinhos e tornando assim Robert Mondavi uma lenda viva. Imagine que a França produz vinhos há pelo menos 1000 anos com milhares de grandes produtores e um único homem em apenas 16 anos derruba um império desses. Essa lenda se chamava Robert Mondavi! Abaixo segue a foto dos vinhos vencedores:

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Desde então, os EUA (especificamente o Napa Valley) tem produzido vinhos tão bons ou até melhores do que os Europeus. E embora se produza boa parte das uvas conhecidas (chardonnay, cabernet-sauvignon, shyraz, etc) com a mesma qualidade, a uva que mais se destaca é a Zinfandel (e ainda mais especificamente os vinhos rosés dela: White Zinfandel).

Características da Zinfandel

O fato de ser minha uva preferida diz respeito a uma característica única da primitivo/zinfandel: equilíbrio. Nenhuma outra uva produz um vinho tão equilibrado quanto essa uva. Tem cor rubi violácea, com um aroma que apresenta certa dose de frutas negras bem maduras (principalmente cerejas negras(cassis), morango e ameixas) e especiarias doces, escoltadas por um mentolado remetendo a cânfora. Na boca, é macio, com bom volume, e nada se destaca, nem acidez, nem taninos, nem álcool. Tudo equilibrado e sem chamar atenção.H2DH‡ôÈ §KP

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Algo muito presente nos vinhos americanos é o aroma característico de baunilha devido ao barril de carvalho americano:

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Harmonização

A uva primitivo é uma uva bem “coringa” devido ao seu equilíbrio de sabores então ela combina com vários tipos de pratos diferentes, mas nenhum deles casou tão bem quanto a famosa costelinha do outback, por isso a escolha será ela.

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Com aproximadamente 1,5kg de costela, tempera-se aproximadamente com:

  1. 1 colher de sopa de sal
  2. 1 colher de sopa de cebola desidratada
  3. 1 colher de sopa de alho desidratado
  4. 1 colher de sopa de páprica
  5. 1 colher de açúcar mascavo
  6. 1 colher de sopa de pimenta do reino
  7. Pimenta tabasco

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Após temperada, devemos envolvê-la com aquele tipo de plástico específico para churrasco e levar para a churrasqueira a 50 cm da brasa por aproximadamente duas horas:

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Apéritif

Nos países europeus (principalmente a França) é muito comum antes da bebida e do prato principal ser servido um aperitivo (apéritif) como forma de “abrir” o apetite para o prato principal, que pode ser ou uma cerveja ou um vinho branco. Nesse caso iremos de cerveja patagônia com salame espanhol:

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Vinho de escolha: Robert Mondavi Zinfandel Private Selection

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A linha Private Selection foi criada em 1994 e, apesar do nome, esta linha visou o mercado popular premium, isto é, vinhos com preços mais acessíveis, com foco em consumidores que não estavam dispostos a pagar dezenas ou centenas de dólares por um vinho. É mais ou menos o que o Tommy Hilfiger se propôs: fazer uma roupa de luxo com preço popular!

Após as duas horas na churrasqueira, devemos retirar o plástico, pincelar com molho barbecue e retornar à churrasqueira por mais 30 minutos. Depois disso está pronto:

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Ficou muito gostoso e macio:

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O vinho é realmente um espetáculo: poucas vezes vi um vinho tão aromático como esse. Aromas adocicados de frutas vermelhas (cereja negra, morango e ameixas) com um toque de baunilha torna-o bem redondo e pronto para beber. Vinho extremamente agradável na boca: macio, sem taninos fortes, sem acidez forte. Nota: 10. Recomendo com empenho!!!

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Digestif

Assim como o apéritif, após as refeições principais pode ser servido um licor ou um vinho do porto ou, como é costume na cidade de Cognac ou região de Bordeaux: servir um Cognac. O Cognac é uma bebida destilada de vinho e armazenada em barris de carvalho por pelo menos 5 anos. Vale ressaltar que só pode ser chamado de Cognac a bebida que é produzida nessa região, todas as outras são chamadas de Brandy. No nosso caso iremos de Brandy espanhol: Osborne.

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História e tipos de copos ou “taças” de vinho

“Uma descrição assaz polida do mais horrível dos vinhos é ‘interessante’ – Hubrecht Dujke

Vou começar esse post com o logo da linha spicy da Spiegelaus pois, como falei no primeiro post, apesar de existir dezenas de bons produtores de taças, a Spiegelaus é uma marca consagrada historicamente por sua qualidade.

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Etimologia

Qual o nome correto: copo ou taça de vinho? Examinando essa questão em suas minúcias pode-se chegar à conclusão que, no Brasil, ambos os nomes estão corretos. A palavra taça vem do francês tasse que significa caneca (de café, de chope, etc), que por sua vez vem do árabe vulgar Tasâ. Provavelmente esse nome associou-se ao vinho porque na idade média era comum o consumo em canecas nas tavernas, como ocorria com a cerveja. Na França o correto é verre du vin, que significa copo de vinho. No inglês também se usa copo de vinho: wine glass. Em alguns livros técnicos sobre vinho, como o Larousse do vinho o nome correto para o português é copo de vinho. Logo, sinta-se à vontade para usar copo ou taça.

História

Nos primórdios da civilização humana, aproximadamente na era do bronze, a cultura argárica (no sudeste da Espanha) realizou as primeiras taças com argila cozida como parte de enxovais funerários.

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Na antiguidade clássica entre os gregos, romanos e fenícios era comum o uso de uma única taça para toda a família ou entre uma roda de amigos, que se colocava na metade da mesa para uso de todos. Devido ao seu alto preço, somente as famílias ricas podiam permitir-se uma, normalmente de luxo e muito pesada. Na Grécia antiga essas taças eram chamadas de kylix.

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Esse ato de beber comunitariamente era algo muito comum como podemos ver numa das cenas mais icônicas da humanidade: Jesus e seus doze discípulos na santa ceia, ato este repetido até hoje por muitas igrejas. Foi nesta cena que se popularizou o mito do Santo Cálice (ou Santo Graal, Holy Grail), a mística taça que Jesus Cristo teria usado na Última Ceia e a que se atribuem poderes sobrenaturais, tais como curar as enfermidades ou conceder a vida eterna. Mito este altamente explorado em livros como o código da Vinci ou filmes como Indiana Jones e a última cruzada.

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E foi essa cena coletiva que caracterizou o consumo de vinho durante a idade média, pois ele era algo muito limitado a comemorações religiosas na igreja. Nessa época o material usado nas taças era metal (principalmente prata).

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Somente na idade moderna é que o vidro começou a fazer parte do universo vinícola, apesar das descobertas de técnicas de sua fabricação e manuseio datarem de antes de Cristo. As cidades italianas tomaram à frente na fabricação do vidro em fins da idade média; no século XV, com a descoberta do cristal, e com a utilização do chumbo pelos ingleses, os recipientes para a degustação do vinho ficaram mais transparentes e menos grossos.

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Na França, a origem de algumas taças estava na necessidade de cada região: em Borgonha foram criadas taças mais abertas e amplas para os tintos, já em Bordeaux, foram criadas com características contrárias a estas. E assim começa o desenvolvimento das taças que possuímos atualmente.

Tipos específicos de taças para determinados tipos de vinho

Conforme falei no segundo post, o gosto de uma bebida é o conjunto de sabor mais aromas e mais sensações, logo a escolha do copo ideal é primordial para uma boa degustação. É fato que o mesmo vinho degustado em copos de formatos diferentes não tem o mesmo gosto.

Bordeaux

Como tenho falado desde o primeiro post, esse é o tipo de taça que qualquer pessoa deve ter, pois ela é a ideal para a grande maioria dos vinhos tintos. Eles necessitam de espaço para respirar (aerar), pois possuem aromas e sabores muito intensos. Por isso, a taça tem corpo grande, alongado, dando espaço para que se libere toda potência dos seus aromas. O formato também é ideal para que a bebida possa “girar” no copo.

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Borgonha

Os vinhos produzidos na Borgonha são mais complexos e concentrados em aromas que os da região de Bordeaux e são produzidos principalmente com a uva Pinot Noir. Portanto, as taças possuem um formato de balão (ou seja, com bojo maior do que as Bordeaux) para que haja mais contato com o ar. Além da Pinot Noir, também é ideal para que sejam apreciados vinhos Rioja tradicional, Barbera Barricato, Amarone, Nebbiolo etc.

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Vinhos brancos ou rosés

As taças são menores do que as para vinho tinto porque o vinho branco exige temperaturas de serviço mais baixas e, portanto, em um copo menor, permite menos trocas de calor com o ambiente. Os vinhos rosés são uma mistura (um meio termo) entre os brancos e os tintos: possuem os taninos dos tintos, mas os aromas dos brancos.

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Espumantes e/ou Champanhes

A taça original de champanhe (pode ser vista no filme sobre Edith Piaf: La vie em rose, por exemplo) pode ser considerada como pura fantasia no âmbito da degustação pois ela dissipa rapidamente os aromas e a espuma, perdendo assim as bolhas.

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Para um Champagne ou um espumante comum, a taça adequada é a que chamamos de flûte, ou flauta. Ela serve para que possam ser apreciadas as borbulhas de gás carbônico mais conhecidas com perlage. A taça fina também direciona a efervescência e os aromas para o nariz, enquanto controla o fluxo acima da língua, mantendo o equilíbrio entre a limpeza da acidez e a saborosa profundidade.

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Vinhos do porto

Os vinhos do porto são conhecidos por serem bem licorosos e doces, logo exigem um copo parecido com o de licor: pequeno porém bojudo e alongado.

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Água

O copo a ser usado para água pode ser livre em sua forma e matéria ou seja, qualquer um serve.

Conclusão

É importante perceber que não é necessário ter determinado tipo de taça para poder apreciar um vinho, porém uma específica para o tipo dele irá potencializar uma boa degustação. Segue-se uma foto das minhas taças.

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Malbec, Churrasco, Shangri-la e afins

A Vida é curta demais para beber vinho de má qualidade – Hubrecht Dujke

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Introdução

Depois do primeiro passo no mundo da enofilia (palavra formada da junção da palavra grega οἶνος (oinos, “vinho”) com a palavra φιλος (filos, “amor, apreço, afeição por”)) é hora de continuar peregrinando por essa jornada arrebatadora. E conforme falei no primeiro post, para nós brasileiros, a melhor opção custo-benefício para o consumo de vinhos encontra-se nos vinhos produzidos na América do Sul: principalmente Chile e Argentina; apesar de haver boas opções também no Uruguai e Brasil. Dito isto, a bola da vez é esta que é considerada como o ícone, a expressão máxima, o ponto clímax da enocultura argentina: a Malbec.

História

Se uma uva pudesse ser considerada como um personagem de romances, com certeza a história da Malbec seria lembrada como um exemplo de determinação, paciência e superação, pois na vida real a “Malbec” era considerada como o “patinho feio” das uvas. Diz a história que Malbeck era o nome do negociante húngaro de vinho que primeiro vendeu a uva t originária de Cahors para os produtores de Bordeaux. Descartando o “K” do nome, ela com isso ganhava uma origem muito mais próxima e um significado que a caracterizava, mesmo que de um modo que nenhuma uva gostaria de ser conhecida. Porque Malbec em francês quer dizer ruim de boca, ruim de bico, amarga, adstringente como uma banana verde.

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Não obstante a todas essas adversidades, a Europa sofreu com uma praga devastadora que chegou a dizimar boa parte dos seus vinhedos no fim do século XIX: a Filoxera. Ocorreram também fortes geadas que minaram quase que por completo a viticultura europeia, levando assim algumas décadas para se reerguer. Paralelamente a esses acontecimentos, a Argentina passava por uma época de ouro após o fim da Guerra do Paraguai e com seu novo presidente visionário: Domingo Faustino Sarmiento.

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Sarmiento tinha o grande sonho de tornar a Argentina um país com padrão europeu, logo apoiou bastante a imigração européia para o país e contratou o enólogo francês Michel Aimé Pouget, que levou para a Argentina diversos tipos de uvas, dentre elas a Malbec, que passou a ser cultivada  principalmente na região de Mendoza e se adaptou muito bem a essa região.

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O problema é que, enquanto seu vizinho Chile já produzia vinhos de excelente qualidade, os argentinos estavam ainda muito aquém e desconhecidos. Somente no final do século XX, na década de 90, ocorreu a grande revolução do vinho Malbec na Argentina, quando Nicolas Catena produziu o primeiro vinho 100% Malbec, maturado por 24 meses em carvalho francês.A qualidade do vinho foi tão absurda que venceu diversos concursos de degustações às cegas contra vinhos clássicos franceses e americanos. A partir daí a Argentina entra no panorama mundial como referência em vinho da uva Malbec. Daí vem a história de que a Malbec encontrou na Argentina a sua Shangri-la (Paraíso terrestre como criação literária de 1925 do inglês James Hilton, Lost Horizon)

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Aromas da uva Malbec

A malbec produz vinhos muito frutados, assim como o Cabernet Sauvignon, logo ela também apresentará vinhos com aromas de frutas negras e vermelhas.

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Contudo, no Cabernet-Sauvignon a cereja se sobressai enquanto que no malbec é a amora (blackberry). Outra característica também é que a malbec vai apresentar também aromas florais de violeta, por exemplo.

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E por último teremos também aroma de tabaco devido ao envelhecimento em barris de carvalho.

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Harmonização com vinhos da uva Malbec

Nada melhor para harmonizar com vinhos da uva malbec do que churrasco. E dentro do churrasco, o que fica perfeito com malbec são os cortes característicos da argentina: bife de ancho e bife de chorizo:

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Basta temperar com sal grosso e uma pimenta do reino e colocar direto na brasa:

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Primeira degustação da noite

Gostaria de deixar aqui uma dica de como transportar seu vinho quando for para a casa de um amigo, por exemplo. Essa bolsa é de couro, mas existem também outras de neoprene :

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Nossa primeira degustação será com um vinho da bodega argentina Casa Montez: Ampakama

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Um vinho muito bom e gostoso de apreciar. Combinou muito bem com o bife de ancho:

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Realmente quando se aprecia vinhos em sequência pode-se fazer uma comparação melhor. Em relação ao Cabernet-Sauvignon a uva malbec também apresenta aroma frutado porém realmente percebe-se que o aroma mais enfático é o de amora. O aroma de cereja é bem menos perceptível. No paladar também apresenta taninos fortes, porém não tem o sabor de pimenta do reino como no casillero del diablo cabernet-sauvignon. Um vinho muito bom e preço acessível: R$ 34.

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Segunda degustação da noite

O próximo vinho é também da mesma bodega: Casa Montez. Só que da linha premium: Fuego negro. Se o primeiro vinho já era muito bom, esse superou as expectativas: aromas muito mais marcantes e sabor espetacular. Como ele é envelhecido em barricas de carvalho francês, percebe-se muito bem o aroma de tabaco. Ficou um espetáculo com o bife de chorizo. Recomendo com empenho!! Valor aproximado nos supermercados: R$50.

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Última degustação da noite

O Gran finale ficou com o meu malbec preferido: Nieto Senetiner reserva. É legal perceber que ele possui um aroma muito amadeirado apresentando forte potencial de guarda. Já tomo esse vinho há um bom tempo, mas só consegui observar essa característica fazendo essa degustação tripla. É difícil perceber todas as qualidades de um vinho tomando-o sozinho! Valor aproximado: R$65.

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Degustando uma lenda: Casillero del Diablo (Cabernet Sauvignon)

“Existem mais de mil anos de história em uma velha garrafa.” ( Paul Claudel)

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Introdução

Tendo dado início aos nossos primeiros passos no mundo do vinho, finalmente chegamos a nossa primeira degustação e, nada melhor do que começá-la de maneira mitológica: degustando uma lenda! A história desse vinho é, talvez, o que o tornou assombrosamente famoso. Tudo começa há aproximadamente 100 anos atrás com Don Melchor de Concha y Toro: um empresário, advogado, político chileno e o Marquês de Casa Concha pela coroa Espanhola.

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Em 1883, ele decidiu se aventurar no ramo dos vinhos plantando vinhas no vale do rio Maipo. De sua viagem à Bordeaux, ele trouxe consigo para o Chile sementes selecionadas e contratou um grande enólogo francês: Monsieur Labouchère. Nascia assim a Concha y Toro. Devido à altíssima qualidade dos vinhos produzidos naquela região, Don Melchor decidiu reservar para si uma pequena parcela dos melhores vinhos produzidos ali: sua adega particular. A fim de evitar os constantes roubos de seu acervo (arquivo, casillero em espanhol) ele espalhou o boato de que naquele lugar habitava o diabo e assim nasce a lenda do Casillero del Diablo.

Sei que já coloquei esse link no primeiro post, mas vale muito a pena quem não viu ainda poder conferir essa história animada num vídeo feito pela concha y toro:

https://www.youtube.com/watch?v=h8XSss1o8x8

Abaixo temos algumas fotos da vinícola Concha y Toro, cortesia do nosso amigo Anderson Lopes:

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Plantação das uvas (cepas)

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Adega onde fica o Casillero del Diablo:

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Há também dezenas de vídeos no youtube falando sobre o casillero del diablo, mas vale deixar aqui o vídeo promocional mais recente do vinho, é sensacional!

https://www.youtube.com/watch?v=RaN-hswZ8gw

Temperatura de serviço

Conforme falei no primeiro post, cada vinho precisa ser degustado na temperatura ideal de forma a liberar o máximo de sabor e aromas. Então, o vinho deve ser mantido todo tempo dentro da adega. Como a adega possui vinhos variados, e normalmente como a maioria dos vinhos são tintos, eu tento manter todos na temperatura média de 16 ᵒC. Para o caso da nossa uva em questão (cabernet-sauvignon), a temperatura ideal de serviço é de 18 ᵒC.

adega

garrafaadega

Esse é, talvez, o maior erro dos degustadores que se comete aqui no Brasil: deixar o vinho depois de aberto na temperatura ambiente. O Brasil é um país quente, então se o vinho passar muito tempo fora da adega ele vai esquentar. Uma solução barata e simples é: apenas no momento de colocar o vinho na taça, deve-se tirá-lo da adega. Depois disso ele deve ser novamente enrolhado e colocado na adega até o próximo momento de tomá-lo. Uma solução mais elegante e um pouco cara é fazer uso de um wine cooler. Eu utilizo um da cuisinart (custa aproximadamente R$600-700 na internet). O bacana dele é porque você consegue setar a temperatura do vinho baseado no seu catálogo de uvas e ele mantém o vinho durante toda a degustação na temperatura ideal para o tipo da uva. É realmente fantástico, recomendo com empenho!!!!

cooler

cooler1

Abrindo o vinho

Como já falei no segundo post, eu gosto muito de utilizar o abridor elétrico devido à sua praticidade mas, atendendo a pedidos do blog, farei uma demonstração de como abrir uma garrafa com um abridor simples e barato:

abrindo0

abrindo1

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abrindo3

abrindo4

abrindo5

Depois de aberto, a rolha também possui papel de destaque desse ritual admirável. Aprendi com um amigo essa prática de colocar a data de abertura da rolha e armazená-la para o futuro:

data-na-rolha

Depois disso a rolha vai para o meu quadro de decoração:

quadro

Taça específica

Semelhantemente, utilizaremos a taça de escolha do primeiro post: Bordeaux Spiegelaus.

taca

Aerando o vinho

Diz-se que, quando um vinho é engarrafado por um bom tempo, ele encontra-se num estado de dormência. Com seus aromas “dormindo”, ou seja, ainda pouco perceptíveis. Há duas formas de “quebrar” esse estado de dormência: usando um decânter ou um aerador. Gostaria de frisar aqui que esse assunto não é muito simples e requer um post exclusivo. Fá-lo-ei num futuro próximo. De forma simplória vou me resumir a dizer que para esse tipo de vinho jovem cai muito bem o uso de um aerador, pois ele faz com que as moléculas do vinho se misturem com as moléculas do ar, liberando assim os aromas mais rapidamente. No meu caso aconselho fortemente o aerador da vinturi (o qual é encontrado na internet e em lojas grandes num valor de aproximadamente R$150 junto com a torre e R$50 apenas o aerador).

aerando2

O olhar do vinho (L’examen visuel)

Como era de se esperar de um cabernet-sauvignon, esse vinho possui uma cor vermelho rubi intenso e lágrimas médias, aparentando leve dulçor.

O nariz do vinho (Le nez du vin)

Algo muito bacana para uma pessoa que está iniciando no mundo dos vinhos e ainda não conhece quais aromas estão presentes num cabernet-sauvignon é procurar informações antes da degustação (internet, livros, etc).

As características dos vinhos da uva cabernet-sauvignon são intensos e ricos em aromas e sabores, como: frutas vermelhas (cereja, amora, morango, framboesa), frutas pretas (ameixa, mirtilo(blueberry), cassis), especiarias (pimentas em pó, cravo) e também marcados por aromas vegetais, de oliva, menta, tabaco, madeira, cedro e anis.

Como maneira de conhecer os aromas, existem maneiras sofisticadas e caras (como o le nez du vin, o qual falarei futuramente) ou mesmo cheirando e conhecendo as frutas. Fiz uma seleção de frutas negras e vermelhas antes da degustação:

-ameixa

-morango

-mirtilo (blueberry)

-amora negra

frutas1

frutas2

amora

nez-1

nez-2

nez-3

A boca do vinho (L’examen gustatif)

Finalmente na hora de beber o vinho, todas as informações encontradas nos passos anteriores se confirmaram. Deixando o vinho na boca por aproximadamente 10 segundos, ele apresentou adstringência (taninos) fortes porém suavizados pelo barril de carvalho (impressionante porque não amargou na boca como outros cabernets de pior qualidade), leve picância do tipo pimenta do reino e leve dulçor embalado pelos aromas de frutas vermelhas e negras. Excelente vinho!!!

Harmonização

Conforme falei no post anterior, a cepa cabernet-sauvignon é amiga íntima das carnes vermelhas e com temperos picantes, como a pimenta do reino. Então nada melhor para degustar esse assombroso vinho do que com filet-mignon ao molho madeira e fritas.

harmonizacao