Malbec, Churrasco, Shangri-la e afins

A Vida é curta demais para beber vinho de má qualidade – Hubrecht Dujke

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Introdução

Depois do primeiro passo no mundo da enofilia (palavra formada da junção da palavra grega οἶνος (oinos, “vinho”) com a palavra φιλος (filos, “amor, apreço, afeição por”)) é hora de continuar peregrinando por essa jornada arrebatadora. E conforme falei no primeiro post, para nós brasileiros, a melhor opção custo-benefício para o consumo de vinhos encontra-se nos vinhos produzidos na América do Sul: principalmente Chile e Argentina; apesar de haver boas opções também no Uruguai e Brasil. Dito isto, a bola da vez é esta que é considerada como o ícone, a expressão máxima, o ponto clímax da enocultura argentina: a Malbec.

História

Se uma uva pudesse ser considerada como um personagem de romances, com certeza a história da Malbec seria lembrada como um exemplo de determinação, paciência e superação, pois na vida real a “Malbec” era considerada como o “patinho feio” das uvas. Diz a história que Malbeck era o nome do negociante húngaro de vinho que primeiro vendeu a uva t originária de Cahors para os produtores de Bordeaux. Descartando o “K” do nome, ela com isso ganhava uma origem muito mais próxima e um significado que a caracterizava, mesmo que de um modo que nenhuma uva gostaria de ser conhecida. Porque Malbec em francês quer dizer ruim de boca, ruim de bico, amarga, adstringente como uma banana verde.

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Não obstante a todas essas adversidades, a Europa sofreu com uma praga devastadora que chegou a dizimar boa parte dos seus vinhedos no fim do século XIX: a Filoxera. Ocorreram também fortes geadas que minaram quase que por completo a viticultura europeia, levando assim algumas décadas para se reerguer. Paralelamente a esses acontecimentos, a Argentina passava por uma época de ouro após o fim da Guerra do Paraguai e com seu novo presidente visionário: Domingo Faustino Sarmiento.

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Sarmiento tinha o grande sonho de tornar a Argentina um país com padrão europeu, logo apoiou bastante a imigração européia para o país e contratou o enólogo francês Michel Aimé Pouget, que levou para a Argentina diversos tipos de uvas, dentre elas a Malbec, que passou a ser cultivada  principalmente na região de Mendoza e se adaptou muito bem a essa região.

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O problema é que, enquanto seu vizinho Chile já produzia vinhos de excelente qualidade, os argentinos estavam ainda muito aquém e desconhecidos. Somente no final do século XX, na década de 90, ocorreu a grande revolução do vinho Malbec na Argentina, quando Nicolas Catena produziu o primeiro vinho 100% Malbec, maturado por 24 meses em carvalho francês.A qualidade do vinho foi tão absurda que venceu diversos concursos de degustações às cegas contra vinhos clássicos franceses e americanos. A partir daí a Argentina entra no panorama mundial como referência em vinho da uva Malbec. Daí vem a história de que a Malbec encontrou na Argentina a sua Shangri-la (Paraíso terrestre como criação literária de 1925 do inglês James Hilton, Lost Horizon)

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Aromas da uva Malbec

A malbec produz vinhos muito frutados, assim como o Cabernet Sauvignon, logo ela também apresentará vinhos com aromas de frutas negras e vermelhas.

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Three plums with leaves on white background.

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Contudo, no Cabernet-Sauvignon a cereja se sobressai enquanto que no malbec é a amora (blackberry). Outra característica também é que a malbec vai apresentar também aromas florais de violeta, por exemplo.

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E por último teremos também aroma de tabaco devido ao envelhecimento em barris de carvalho.

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Harmonização com vinhos da uva Malbec

Nada melhor para harmonizar com vinhos da uva malbec do que churrasco. E dentro do churrasco, o que fica perfeito com malbec são os cortes característicos da argentina: bife de ancho e bife de chorizo:

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Basta temperar com sal grosso e uma pimenta do reino e colocar direto na brasa:

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Primeira degustação da noite

Gostaria de deixar aqui uma dica de como transportar seu vinho quando for para a casa de um amigo, por exemplo. Essa bolsa é de couro, mas existem também outras de neoprene :

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Nossa primeira degustação será com um vinho da bodega argentina Casa Montez: Ampakama

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Um vinho muito bom e gostoso de apreciar. Combinou muito bem com o bife de ancho:

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Realmente quando se aprecia vinhos em sequência pode-se fazer uma comparação melhor. Em relação ao Cabernet-Sauvignon a uva malbec também apresenta aroma frutado porém realmente percebe-se que o aroma mais enfático é o de amora. O aroma de cereja é bem menos perceptível. No paladar também apresenta taninos fortes, porém não tem o sabor de pimenta do reino como no casillero del diablo cabernet-sauvignon. Um vinho muito bom e preço acessível: R$ 34.

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Segunda degustação da noite

O próximo vinho é também da mesma bodega: Casa Montez. Só que da linha premium: Fuego negro. Se o primeiro vinho já era muito bom, esse superou as expectativas: aromas muito mais marcantes e sabor espetacular. Como ele é envelhecido em barricas de carvalho francês, percebe-se muito bem o aroma de tabaco. Ficou um espetáculo com o bife de chorizo. Recomendo com empenho!! Valor aproximado nos supermercados: R$50.

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Última degustação da noite

O Gran finale ficou com o meu malbec preferido: Nieto Senetiner reserva. É legal perceber que ele possui um aroma muito amadeirado apresentando forte potencial de guarda. Já tomo esse vinho há um bom tempo, mas só consegui observar essa característica fazendo essa degustação tripla. É difícil perceber todas as qualidades de um vinho tomando-o sozinho! Valor aproximado: R$65.

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10 comentários sobre “Malbec, Churrasco, Shangri-la e afins

  1. SONIA

    Pedro, para mim essa é uma das formas que gosto de degustar vinho. Uma mesma uva harmonizando com a comida e vinhos de vários níveis. Parabéns está objetivo, com uma pitada de história!!

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  2. Mais um post interessantíssimo! Aprecio demais os “malbecs argentinos”. É importante frisar que o segredo para quem está iniciando na apreciação de vinhos é a harmonização. É comum encontrar pessoas que não gostam do sabor adstringente ou do aroma amadeirado de alguns vinhos, mas se experimentarem com os acompanhamentos certos (falando de modo bem simples sobre harmonização) não tem erro: paixão à primeira degustação! Sugiro tratar em outros posts sobre safra e sobre alguns termos técnicos que encontramos nos rótulos, como p.ex., reserva (ou reservado). Mais uma vez, parabéns! Leitura proveitosa e instigante. Mantenha o padrão!

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  3. Carol Colares

    Oi querido! Adoro seus post e tem me sido de grande valia!
    Amo vinhos e agora estou aprendendo sobre eles!
    Bom, esse último post foi o que eu mais gostei pois foi mais sucinto e objetivo, nos outros foram tratados assuntos que mereciam post em separado!
    Boa sorte smp!

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