Merlot, Bento Gonçalves e Pizza Gourmet

“O enólogo é o cara que, diante do vinho, toma decisões e o enófilo é o cara que, diante das decisões, toma vinho!” (Luiz Groff)

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Fonte: http://winederlusting.com/

Introdução

Finalmente teremos nossa primeira parada no Brasil meus amigos! E o post de hoje terá o objetivo de revelar uma grande verdade incógnita de muitos: no Brasil se faz bons vinhos!

É bem verdade que as pessoas desconhecem esse fato porque realmente na história do Brasil nunca houve vinhos de destaque como vemos hoje até pouquíssimo tempo. Recentemente um amigo Francês me enviou uma série de artigos de revistas francesas enaltecendo os vinhos Brasileiros: na última copa do mundo vários bons entendedores e degustadores de vinhos do mundo todo (principalmente da França) ficaram maravilhados com a qualidade dos vinhos brasileiros não apenas dos espumantes mas também dos tintos.

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Principal revista de vinhos francesa, La Revue du Vin de France de maio de 2014

E, dentre as uvas mais bem adaptadas no Brasil, nenhuma se habituou tão bem como a Merlot e por isso ela será empregada por nós como perspectiva vitícola iconólatra brasileira!

Breve História da Viticultura Brasileira

O primeiro registro histórico de que se tem notícia sobre a primeira plantação de uvas viníferas no Brasil foi feita pelos colonizadores portugueses em 1532, através de Martin Afonso de Souza, na então Capitania de São Vicente, hoje Estado de São Paulo, com resultados desanimadores devido ao clima quente e úmido. Diz-se então que os bandeirantes foram os primeiros a alastrar a cultura da uva pelo território brasileiro.

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Porém, desde o princípio, os vinhos feitos no Brasil eram de baixíssima qualidade e com uvas inadequadas para a viticultura. Conforme o Brasil ia crescendo, ficando rico, algumas pequenas indústrias iam surgindo, fato que retirava um bom número da receita de Portugal. Então, como o Brasil era uma colônia, a rainha Dona Maria I baixa um alvará em 5 de janeiro de 1785 proibindo toda a atividade manufatureira no Brasil. Nada podia ser transformado e depois vendido, tudo tinha que vir de Portugal. Isso acabou sepultando a jovem indústria vitivinícola no Brasil. Esse alvará só viria a cair com a chegada da família real futuramente.

Entre 1870 e 1875 teve início a colonização italiana na Serra Gaúcha, instalando-se uma colônia com hábitos ligados ao vinho, que inicialmente elaborou vinhos de mesa para consumo próprio e em seguida avançou produzindo para o consumo de toda a região sul.

Apenas em 1970, com a chegada ao Brasil das primeiras multinacionais do vinho, foram implantados vinhedos de uvas viníferas, sendo esta a data de início da vinicultura fina em nosso país.

Muitas famílias descendentes dos primeiros imigrantes italianos entenderam bem o que se passava e não deixaram escapar a oportunidade de se profissionalizarem oficialmente, criando então novas empresas ou solidificando as já existentes com um alto nível de sofisticação técnica e muito conhecimento empresarial. Daí surgem Miolo, Pizzato, Lovara, Dal Pizzol, Dom Cândido, Valduga, Lidio Carraro, Dom Giovanni, Pedrucci, Marson, Valmarino e tantos outros que, junto dos mais antigos como Cooperativa Aurora, Salton, Cooperativa Garibaldi, La Cave, redesenham todo o cenário vinícola nacional. Desde então a qualidade dos vinhos brasileiros somente vêm evoluindo de maneira espantosa.

Características da Merlot

Se a Cabernet-Sauvignon encontra-se como a referência número 1 no que tange ao quesito de cepas tintas, com toda a certeza a número 2 é a Merlot. Essa que é ingrediente importante de alguns dos melhores e mais caros vinhos do mundo, como alguns crus produzidos pela vinícola Petrus que são vendidos no Brasil com um valor médio de 40 mil reais!!!

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A palavra “merlot” significa “pequeno merle”, ou melro, em francês, um pequeno pássaro preto comum na Europa. Originária da região de Bordeaux, na França, a Merlot é descendente da Cabernet Franc e meia irmã da Carménère e da Cabernet Sauvignon. Os primeiros registros oficiais são recentes, de 1784 em Bordeaux.

E o que torna a merlot tão conhecida e amada por muitos é o fato de que ela é muito semelhante à Cabernet-Sauvignon porém com taninos bem menos intensos. Vinhos produzidos com ela possuem média tanicidade, o que os tornam fáceis de harmonizar com muitos tipos diferentes de comida. Os aromas típicos de um vinho à base de Merlot são os frutados de amora, morango, framboesa, cereja, ameixa, groselha e figo, os florais de rosas e violetas, os derivados de carvalho, como cedro, cacau, tabaco, baunilha e fumaça, os herbais, como menta e louro, e os de especiarias, como canela, cravo, alcaçuz e café.

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Fonte: https://faberpartner.de/

 Harmonização

Conforme mencionamos no post atual, a merlot é uma uva que produz vinhos com tanicidade média e, isso significa dizer que, a quantidade de harmonizações possíveis com essa uva é colossal. Mas hoje irei combiná-la com uma receita que aprendi com um amigo na Marinha: Pizza 4 queijos gourmet.

Vinho de escolha: Salton Desejo Merlot, 2008

Escolher um vinho que sirva de exemplo de como o Brasil possui coisa boa não é fácil devido à alta variedade, mas a nossa escolha será feita baseada na grande propaganda e comentários que esse vinho possui em todo o mundo. O salton desejo merlot é uma verdadeira obra de arte aprovada por diversos conhecedores de vinho no mundo todo. Arrisco-me a dizer que nenhum vinho tinto brasileiro ganhou tamanha repercussão como ele. Basta ir ao youtube e ver a quantidade de comentários e críticas sobre ele ou adquirir revistas estrangeiras famosas como a mostrada no começo do post (La revue du vin de France) para se ter uma idéia da grandiosidade dele.

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É também um vinho considerado de guarda e envelhecido (9 anos na garrafa). Antes de ser engarrafado ele passa cerca de 1 ano em barrica de carvalho francês (podendo ser considerado um gran reserva) e 1 ano envelhecendo na adega antes de ser posto para venda. Uma das características de um vinho de guarda é a espessura da sua garrafa.

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Receita da Pizza

Para essa pizza será necessário 1kg de Farinha de trigo de boa qualidade

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½ copo de óleo

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1 a 3 copos de leite

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1 tablete de fermento biológico para pizzas e pães

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Colocamos a farinha de trigo e depois juntamos os ingredientes aos poucos até a massa “descolar” da mão:

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Depois da massa pronta, ela deve descansar por um tempo entre 2,5 a 3 horas para ela “crescer”. Após esse tempo:

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Antes de trabalharmos a massa pré-aquecemos o forno e levamos a pedra para aquecer:

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Agora trabalhamos a massa

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Adicionamos o molho de tomate com um pouco de azeite e orégano:

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Após colocamos o queijo mozzarella (muçarela)

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Ralamos os queijos provolone e parmesão e colocamos o gorgonzola por cima

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Levamos a pizza ao forno até que o queijo todo derreta e a massa fique dourada:

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E finalmente ela estará pronta:

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Conclusão

Et voilà, ficou um espetáculo essa combinação:

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O vinho é realmente um espetáculo e em qualidade assemelha-se à linha Marquês de Casa Concha da Concha Y Toro. Nessa última foto pode-se perceber a diferença de um vinho envelhecido para um vinho jovem. O salton desejo 2008 possui coloração bem mais “tijolo” que os outros vinhos mais jovens. Viva o Brasil, Viva o Rio Grande do Sul e Viva Bento Gonçalves!!!!!

Como um vinho é feito?

“O Conhecimento e a educação sensorial apurada podem obter do vinho prazeres infinitos.” – Ernest Hemingway (Death in the Afternoon)

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Introdução

“Degustar é beber prestando atenção, é aplicar um critério, um crivo”. Essas foram as palavras através das quais eu desenvolvi o segundo post do blog (Como degustar um vinho) e, conforme elas, a qualidade de uma degustação está intrinsecamente ligada à quantidade e à qualidade de critérios e informações que o degustador possui em relação ao vinho de escolha. Por qual motivo alguns vinhos possuem aromas de tabaco e baunilha enquanto outros não? Por qual motivo um vinho produzido com a mesma uva e com o mesmo processo de fabricação é completamente díspar de outro vinho produzido em um lugar diferente? Todas essas informações só podem ser respondidas através do conhecimento do processo de fabricação de um vinho. Falaremos também da diferença de produção dos vinhos tintos, brancos, rosés, do porto, etc. Só não falaremos nesse post dos champanhes e espumantes pois, para isso, haverá um post específico em breve. Embarquemos então nessa jornada magnífica!

1. Cultivo

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Fonte:https://chaoswallpapers.com/

Embora os 7 passos descritos acima sejam todos muito importantes na produção de um bom vinho, nenhum deles é tão primordial quanto o primeiro. O vinho é um alimento e, como tal, não importa o quão bom seja o cozinheiro se os ingredientes são de qualidade duvidável. Aprendi com um francês amigo meu essa inesquecível frase: “Le secret d’une bonne nourriture sont les ingredients, ça veut dire que si tu cuisines la merde, le résultat sera une merde!!!”. Logo, todos os vinhos de altíssima qualidade do mundo todo possuem o diferencial de serem uvas de altíssima qualidade: isto é condição sine qua non. O assunto é tão importante que, de maneira genérica, um enólogo no fundo é um agrônomo, pois boa parte do curso é só sobre a agronomia.

Vitis Vinifera

É a variedade que produz vinho. Existem mais de 5000 espécies conhecidas (cabernet sauvignon, chardonnay, zinfandel, etc) e ela é originária da região mediterrânea, Europa Central e sudoeste asiático, do Marrocos a Portugal, do norte ao sul da Alemanha e a leste da parte norte do Irã.

Mas Pedro, é possível fazer vinho com aquelas uvas que eu encontro pra vender no supermercado? Sim, existem vários vídeos na internet e artigos escritos falando sobre como você fazer isso em casa. A única questão é que não será um bom vinho, pois a uva vinífera apresenta aspectos diferentes da uva de mesa vendida no supermercado: acidez, dulçor, espessura da casca diferente, etc. O raciocínio é o mesmo da pipoca: se ela é feita de milho significa dizer que posso fazer pipoca com qualquer tipo de milho? Não, pois o milho que estoura tem uma concentração maior de água no seu interior do que os outros. Ou a lógica da batata frita: posso fazer batata frita com qualquer batata? Sim, porém ela não vai ficar tão boa quanto a do Mc Donalds ou Outback porque, fora o processo de fabricação, ela é feita de uma espécie específica.

O que é o terroir?

A palavra terroir vem do Francês e significa não apenas o pedaço de terra com solo próprio para a vinicultura como também suas características geológicas, topológicas e climáticas. Ele é, sem sombra de dúvidas, o elemento mais importante do processo de produção de um vinho. No quarto post eu citei o exemplo da Malbec, que existia há séculos em Bordeaux junto com os melhores enólogos do mundo e não produzia vinhos bons, mas a mesma uva tornou-se famosa no mundo dos vinhos após o encontro com o terroir de Mendoza. Olivier Poussier (eleito o melhor sommelier do mundo em 2000)  possui uma frase célebre sobre o papel do terroir na elaboração de um grande vinho:

Um grande vinho é uma conjugação de complexidade, finesse, equilíbrio e persistência que propicia grande prazer ao degustador. Com o tempo, ele deve ganhar em sabores e aromas. Sua grandeza de expressão provém mais de seu terroir do que sua cepa e/ou de sua safra. Não há grande vinho sem um homem que, por seus conhecimentos sobre o terroir, saiba revelar toda a sua quintessência.

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Olivier Poussier

A vinha possuirá o sabor e aroma específicos do seu terroir.

Necessidades da vinha

               De um modo geral, pode-se dizer que a vinha precisa dos seguintes elementos:

-Boas condições climáticas

 1- Temperaturas médias entre 10 ᵒC e 25 ᵒC (temperaturas baixas ou altas demais interrompem o seu crescimento)

2- Pluviosidade moderada de 500 a 700 mm por ano (muita água vai acarretar bagas grandes com muita água e pouco açúcar

3- Pouco vento

-Bons solos

1-Pouco férteis: uma pérola é formada dentro de uma ostra quando ela sofre devido a um distúrbio, e da mesma forma é com a uva: ela precisa “sofrer” pela pobreza do solo de forma a produzir um vinho de qualidade. Com um solo pobre, as raízes tornam-se mais profundas e isso permite a vinha obter o máximo de minerais.

2-Drenagem adequada: esse fator vai depender de cada uva, cada tipo pede um solo mais ou menos permeável.

Altitude adequada

Embora seja possível produzir bons vinhos em terreno plano, a maioria das uvas se adapta melhor em planaltos com altitude moderada. Isso se dá porque nestes locais os dias são bastante ensolarados e as noites são bem frescas, originando uma grande amplitude térmica e que permite à vinha o desenvolvimento de todo seu potencial.

2.Colheita

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O momento exato para a vindima irá variar dependendo do tipo de uva e região, mas ela ocorrerá quando o nível de açúcar na uva chegar ao seu máximo e estagnar. Ao mesmo tempo em que o nível de acidez diminui até ao seu ponto ideal e ali permanece.

3.Desengaçamento

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Imediatamente após a colheita, a uva é posta numa máquina responsável por separar as uvas dos cachos antes delas serem prensadas.

4.Prensa

Essa, junto com a etapa da fermentação serão o ponto que irá definir se o vinho será branco, tinto ou rosé. No caso do vinho branco, logo após o desengaçamento, as uvas são prensadas e filtradas de forma que, apenas o caldo, o “suco” delas é posto para fermentar, com a ausência de qualquer casca. No caso dos vinhos tintos, as uvas são prensadas e deixadas para fermentar junto com as cascas. Se esse tempo de contato com as cascas é curto, surge o vinho rosé.

Nos primórdios a prensa era feita pisando as uvas com os pés:

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Fonte:https://allartsgallery.com/

Logo após evoluiu-se para a prensa mecânica:

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Mas hoje usa-se uma prensa do tipo pneumática (um balão interno se expande esmagando as uvas contra a parede do tanque):

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Após o esmagamento das uvas ou da extração do suco delas (no caso do vinho branco), esse sumo é levado para tanques de fermentação (geralmente de aço inox) onde ficam por cerca de 2 a 3 semanas com a temperatura deles sendo controlada.

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Fonte:https://papodevinho.com/

É nessa etapa que vão surgir boa parte dos aromas que vemos nos vinhos (groselha, mirtilo, cereja, etc) devido à ação das leveduras degradando os açúcares e transformando-os em álcool e resíduos. A mais famosa das leveduras é a saccharomyces cerevisiae, responsável pela produção da cerveja e dos pães.

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É importante lembrar que a própria casca da uva já possui essas leveduras, porém pode-se manipular o resultado final de um vinho fazendo-se uso de porções adicionais delas.

Após essa etapa da fermentação, esse mosto é filtrado e o resultado já pode ser considerado vinho. Aqueles vinhos reservados que você encontra no supermercado e os compra por R$30 reais é exatamente esse produto: um vinho novo sem nenhum tratamento adicional.

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Mas o que são aqueles “vinhos” ditos “suaves” baratos que encontramos no supermercado?

São feitos com o refugo do mosto e adição de açúcar. Após o vinho ser filtrado, o mosto resultante é prensado em uma extração final e acrescenta-se um pouco mesmo do vinho junto com açúcar e outros ingredientes.

6.Envelhecimento

É nessa etapa que o vinho vai ser sofisticado. A permanência dele no barril de carvalho é que vai definir os aromas “complexos” que percebemos em boa parte dos bons vinhos: baunilha, madeira e tabaco (porque o barril de carvalho recebe tratamento com fogo antes de ser utilizado).

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O tempo de amadurecimento no barril pode durar de 6 meses até 2 anos em alguns casos. É daí que vem a diferença entre os títulos reserva e gran reserva: o tempo em que cada vinho permanece dentro do barril de carvalho. Na Europa esse tempo é padronizado, mas nos países do novo mundo como o Chile cada produtor determina o que é reserva ou gran reserva.

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Fonte:https://casillerodeldiablo.com/
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Fonte: https://mochilandoroots.wordpress.com/

7.Engarrafamento

Et voilá, após o vinho ser colocado na garrafa e enrolhado ele está pronto para ser consumido, o que não significa que ele possa ainda “apurar” mais no caso de um vinho de guarda ou transformar-se em vinagre no caso um vinho simples, de mesa. Vale a máxima:

“O sonho de todo vinho é transformar-se em vinagre!”

Conclusão

O assunto é bem complexo e há muitas lacunas que criei no meu artigo, porém é necessário compreender que fazer um vinho resume-se a 4 coisas:

1-Esmagar as uvas

2-Deixá-las fermentar

3-Filtrar o mosto e engarrafar a bebida ou

4-Deixá-la envelhecendo num barril de carvalho antes de engarrafá-la

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Fonte: https://crowdact.com/

 

 

Carmenère, Frango Assado e Estrela Chilena

“Não fico surpreso que as pessoas não identifiquem estes aromas todos nos vinhos que compram. Eu mesmo não sou capaz de reconhecê-los. Aliás, acho muito aborrecido. Não estou interessado nisso, e sim na personalidade do vinho.” (Aubert de Villaine, proprietário da Domaine de Romaneé-Conti)

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Fonte: http://www.winetypeswiki.com/

Introdução

Voltemos ao Chile meus amigos! O nosso ponto de partida da nossa jornada no mundo da enologia nos apresenta uma uva única em que jamais poderíamos passar incólumes sem o seu conhecimento! E, conforme falei na nossa primeira degustação, a Cabernet-Sauvignon se estabeleceu como a uva que mais se adaptou no país. Porém, da década de 90 para cá, a casta que tem brilhado e se destacado como símbolo chileno é a Carmenère. Uva esta que tem sido adorada por muitas pessoas (inclusive vários amigos próximos) devido à sua unicidade!

História

A história dessa uva pode-se afirmar que é, no mínimo, intrigante. Ela, assim como boa parte das uvas viníferas conhecidas, é originária da França na região do Médoc em Bordeaux. Acredita-se que essa casta é uma das espécies mais velhas do mundo.

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Vimos nos posts passados que, ao fim do século 19, aproximadamente em 1867, uma terrível praga conhecida como Phylloxera foi responsável por dizimar quase todas plantações de uvas da Europa, afetando particularmente as plantações com a uva Carménère, as quais eram bem mais susceptíveis à doença. Acreditava-se que essa espécie tinha sido extinta do mapa há mais de 100 anos até que, em 1994, no Chile, um enólogo francês, chamado Jean-Michel Boursiquot, notou que algumas cepas de Merlot demoravam a maturar. Os resultados de estudos realizados concluíram que se tratava na realidade da antiga variedade de Bordeaux Carménère, cultivada inadvertidamente, misturada com pés de Merlot. Provavelmente, nos primórdios, ela foi levada por engano ao chile mas se adaptou ao clima agradável e aos solos férteis obtendo êxito ao ponto de ser considerada uma das uvas mais importantes do Chile por sua qualidade e sabor excepcional.

Características da Carmenère

A carmenère é uma uva que foge um pouco das características dos vinhos tintos os quais vimos até o presente momento: possui taninos médios a macios e possui aromas vegetais em adição ao de frutas negras e vermelhas. Em alguns vinhos desta casta é possível sentir o aroma característico de pimentão, por exemplo.

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Fonte: http://faberpartner.de
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Fonte:http://fashionismo.com.br/

Harmonização

Conforme mencionamos no post atual, a carmenère é uma uva que produz vinhos com tanicidade média a baixa e, isso significa dizer que, como é um vinho tinto, combina com carnes e, devido à baixa tanicidade, combina especificamente com carnes brancas como o frango. O seu frango de padaria de Domingo ficará muito mais interessante e saboroso quando combinado com vinhos dessa uva.

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Enquanto se espera pela aprazível refeição, você pode apreciar essa que é um dos exemplos de que no Brasil também se produz bebida de qualidade: Colorado Appia. Essa cervejaria paulista (Ribeirão Preto) de 18 anos que conquistou o mercado não apenas gourmet brasileiro como o Internacional, apresenta uma cerveja de trigo única, com o uso de mel em sua fabricação e cujo rótulo e mascote (urso) foi desenvolvido por um dos maiores designers cervejeiros do mundo: Randy Mosher.

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Vinho de escolha: Carmenère Reserva Casillero del Diablo, 2014

Apesar de já termos falado sobre a Concha y Toro aqui no post do Cabernet-Sauvignon, iremos também fazer uso da linha Casillero del Diablo para falarmos sobre a Carmenère devido ao fato de apresentar o melhor custo-benefício de todos. A linha Casillero del Diablo só perde em qualidade para a linha premium Marquês de Casa Concha!!

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Se a vontade do degustador for para harmonizar o vinho com um queijo específico, nada melhor do que um queijo cremoso do tipo brie ou camembert!

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Nada melhor para terminar uma refeição do que harmonizá-la com o síbolo americano do bom Bourbon: Jack Daniels Honney. Também feito com mel em sua receita!!!!!!

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Chardonnay, Camarão na Moranga e Cepas brancas

“Sem vinho, sem soldados” / ” Nas vitórias é merecido, nas derrotas é necessário” (sobre o Champagne)- Napoleão Bonaparte

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Fonte: http://www.lodiwine.com/

Introdução

Se o mundo dos vinhos pudesse ser resumido em uma única uva tinta e uma única uva branca, com certeza a escolha para a tinta seria a Cabernet-Sauvignon e a branca seria a Chardonnay. Essa que recebe o epíteto de rainha das uvas brancas! E qual o fator mais importante que torna essa uva tão conhecida e tão famosa? Resposta: Versatilidade. Charles Darwin, no seu dito máximo, afirmou que não é o mais forte quem sobrevive, mas o que se adapta melhor. E assim é com a Chardonnay, presente em praticamente todo o mundo.

História

A origem da Chardonnay é na França e, após recentes estudos de DNA americanos, chegou-se à conclusão de que ela é filha de duas variedades de uvas: a Gouais Blanc e a Pinot Noir. Acredita-se que os romanos trouxeram a Gouais Blanc dos Bálcãs e que a cepa acabou sendo cultivada por camponeses no leste da França a partir do século III. Em estreita proximidade, crescia a Pinot Blanc da aristocracia francesa, fato que proporcionou ampla oportunidade para as uvas se cruzarem. Estudos mostram que essa fusão ocorreu em Mâconnais, na Borgonha, onde uma cidade leva o nome de Chardonnay, por volta do século XIII. Desde então, a Chardonnay passa a se tornar oficialmente uma uva vinífera.

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Gouais Blanc. Fonte: wikipedia
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Pinot Noir. Fonte: http://olivierbourse.com/
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Fonte: http://burgundyandbeyond.com/

Características da Chardonnay

A chardonnay é uma uva que produz vinhos muito frutados e cítricos. Dependendo da região em que ela é plantada ela apresenta aromas bem distintos. Nos países mais quentes ela vai apresentar aromas potentes e oleosos como brioche, manteiga freca, avelã e pão tostado. Já os vinhos produzidos na Borgonha vão apresentar aromas de frutas cítricas e exóticas como abacaxi, pêssego, laranja, pêra, maçã, melão, etc. Caso seja envelhecido num barril de carvalho teremos também os aromas de baunilha e tabaco.

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Fonte: https://br.pinterest.com/
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Fonte:http://purovino.com/

Harmonização

Futuramente teremos no blog um post específico sobre harmonização porém, de forma bem genérica, podemos aplicar a seguinte regra: vinhos tintos combinam com carnes ( brancas e vermelhas dependendo da tanicidade) e vinhos brancos combinam com peixes e frutos do mar. O chardonnay fica perfeito com camarão, logo faremos um prato altamente famoso da culinária nordestina: camarão na moranga.

Primeiro passo: escolha da moranga. É necessário uma moranga de médio para grande para essa receita.

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O segundo passo é abrir um tampão na moranga e raspá-la para retirar todas as sementes:

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Após isso devemos levar a moranga ao micro-ondas na potência máxima por 20 minutos enquanto temperamos 1 kg de camarão sem casca com sal e pimenta do reino.

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Devemos refogá-los separadamente enquanto refogamos na outra panela 1 cebola ralada, 2 a 3 colheres de azeite e alho.

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Após um tempo adicionamos o molho de tomate:

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Após os camarões estarem refogados, os juntamos à panela e deixamos ferver por 5 minutos

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Após isso dissolvemos 2 colheres de farinha de trigo em 100ml de leite e adicionamos à receita

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Rapidinho teremos o ponto desejado

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Desligamos então o fogo e adicionamos 200g de creme de leite com 200g de requeijão e, após termos misturado os dois acrescentamo-los à panela junto com um maço de cheiro verde picado:

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Após isso, forramos a abóbora com requeijão e levamos todo o conteúdo da panela para a moranga:

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Depois levamos ao fogo na temperatura de 220 ᵒC por 15 minutos e depois na temperatura de 280 ᵒC para gratinar por mais 10 minutos. Enquanto isso colocamos os camarões grandes numa panela com água e sal:

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Após um tempo fervendo, eles estão prontos. Basta então tirar a cabeça e as patas para decorarmos a moranga:

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Vinho de escolha: Chardonnay Reserva, Ventisquero 2014

O chile produz vinhos espetaculares com essa uva, também com excelente custo-benefício. E a bodega Ventisquero é um gigante no chile também, logo a escolha será por ele. O valor dele nos supermercados é na faixa de R$ 50 reais. Antes de tomá-lo devemos colocá-lo na temperatura de 9 ᵒC.

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Conclusão

Amigos, realmente estou muito surpreso, pois foi a primeira vez que fiz essa receita e, modéstia a parte, foi uma das coisas mais gostosas que já comi na vida!! A combinação com o vinho ficou perfeita, nota 10!! Recomendo com empenho.