Le nez du vin, bardega e mix de clássicos

“Rapidamente, traga-me um copo de vinho, para que possa refrescar minha mente e dizer algo inteligente.” Aristófanes

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Introdução

Amigos, esse provavelmente será o post mais extenso do nosso blog, pois falaremos de uma maneira geral de como se aprender o básico do mundo dos vinhos e teremos um grande mix de lendas dos vinhos.

Como estudar sobre vinhos: dicas de livros

Vou citar aqui algumas dicas, mas acredito que ninguém faz um material mais didático e bacana do que a nossa amada Madeline Puckette.

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Além do seu badaladíssimo site winefolly, temos duas opções de livros fantásticos:

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Esse master guide para mim é o melhor livro já feito no mundo dos vinhos. Altamente didático e objetivo. Não chega a ser exaustivo, mas aborda de forma completa o assunto. Pena que ainda não existe em português. Pode ser encontrado no site da amazon por R$120. Caso você deseje algum em português pode tentar o de baixo que é um resumo do primeiro:

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Como sugestão de harmonização eu curti muito esse daqui:

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Também temos uma obra bem extensa e consagrada: Grande Larousse do vinho

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Como estudar sobre vinhos: dica de curso de aromas

Não existe outra opção no mundo de um grande curso de aromas que não seja o do Jean Lenoir. O le nez du vin é uma ferramenta de ensino utilizada em todos os grandes cursos de sommeliers do mundo. Ele consiste numa caixa contendo 54 aromas, num livro descrevendo-os e em 54 cartas contendo cada aroma.

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Ele é importado para o Brasil através do site:

https://www.delacroixvinhos.com.br/le-nez-du-vin.html

Como estudar sobre vinhos: dica de local de degustação

A melhor forma de estudar sobre vinhos é em winebars (lugares em que se pode degustar apenas uma taça ao invés de uma garrafa). No Brasil infelizmente há poucos nesse formato, mas existe um deles que é sensacional: o Bardega.

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E é lá que iremos degustar alguns clássicos que eu estive devendo há um bom tempo no Blog.

Supertoscano (Bolgheri e o quarto B da Itália) – Gaja Ca’Marcanda Promis 2013

Já comentamos no post do Barolo que ele foi o primeiro vinho italiano de sucesso em comparação com os franceses. Mas os italianos não pararam por aí e decidiram produzir seus próprios vinhos de Bordeaux (Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, etc) com um toque próprio (Sangiovese). E foi na região da cidade de Bolgheri que esses vinhos atingiram sua perfeição. E para diferenciá-los dos vinhos de baixa qualidade produzidos (os vinos de távola), os produtores decidiram chamá-los de supertoscanos.

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Com 92+ pontos de Robert Parker e 91+ pontos de James Suckling na safra 2013, o Promis é macio e envolvente, com bastante presença de boca, concentração e camadas e mais camadas de fruta. Este delicioso tinto é produzido na propriedade de Angelo Gaja em Bolgheri, na Toscana. Ele é um corte de Merlot (55%), Syrah (35%) e Sangiovese (10%). Esse é um bolgheri que custa aproximadamente R$360 e dono de um roxo lilás que apresenta aromas marcantes de frutas negras e vermelhas como a ameixa e a groselha negra.

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Catena Zapata Malbec Argentino 2015

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O segundo vinho da nossa degustação é, verdadeiramente, uma lenda. Já comentamos aqui no blog várias vezes sobre a superioridade da bodega Argentina Catena Zapata (link). Compará-la com as outras vinícolas é simplesmente ganhar de 7 a 1, mas agora ela simplesmente atingiu sua expressão máxima com esse novo rótulo. Adrianna Catena criou esse rótulo inspirado na história da sua variedade principal, contada através de quatro mulheres simbólicas. O rótulo retrata quatro figuras femininas que incorporam diferentes marcos na história da casta. A primeira mulher, que simboliza o nascimento da Malbec e símbolo dessa casta na região de Cahors, é Eleanor da Aquitânia. A segunda mulher é a imigrante, simbolizando o movimento dos colonos da Europa para o Novo Mundo. A terceira mulher simboliza a filoxera, que dizimou videiras europeias no final do século XIX. A última mulher, representando o presente, é Adrianna Catena, que dá nome ao vinhedo mais famoso de Catena, plantado por Nicolás Catena Zapata em Gualtallary com o objetivo de encontrar o local mais interessante para cultivar videiras em Mendoza. O rótulo é raro e de difícil acesso mesmo pela internet, chegando a custar mais de US$ 200. O vinho é fermentado em barris novos de carvalho, nos quais 20% dos cachos foram colocados inteiros e permanecem por 30 dias, para a integração entre madeira e fruta. Depois, foi burilado por 18 meses também em barricas de carvalho francês. Complexo, fino, combina intensidade com elegância. Nos aromas há notas florais, de tabaco, especiarias e algo mineral, em meio a fruta madura, como cereja e cassis. Untuoso, concentrado, tem taninos maduros, boa acidez e frescor. É vigoroso e muito expressivo na boca. É necessário deixa-lo respirar para que todo o seu buquê seja revelado.

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A minha percepção pessoal desse vinho é a mesma que eu tive ao degustar o Don Melchor (link), ou seja, ele é superior e muito mais trabalhado, mas não vale nem de longe o preço que é cobrado. Como falei anteriormente, a Catena Zapata mantém um altíssimo padrão de qualidade mesmo para as suas linhas mais simples!

Vignobles Mayard Châteauneuf-du-Pape Clos du Calvaire 2015

A Expressão “Châteauneuf du Pape”  é francesa, e  significa literalmente “O  castelo novo do Papa”. E sua origem está relacionada à chegada dos Papas à cidade de Avignon, no sul da França no início do século XIV. Entre os anos de 1315 e 1333, o Papa João XXII, o segundo Papa eleito em Avignon, ordenou a construção de um castelo ao norte da cidade a ser utilizado exclusivamente como casa de veraneio dos Papas.

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Infelizmente, hoje só sobraram ruínas do castelo, que ainda podem ser visitadas na região.

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O castelo foi construído em uma região estratégica, distante o suficiente da sede do papado, garantindo seu descanso, porém, próxima o suficiente para se manter a comunicação com a sede. Sobre seu terreno rochoso foram plantadas parreiras para produção de vinho de consumo do castelo, e assim começava a história do “vin du Pape” ou “vinho do Papa”. Mas como todo vinho famoso, existe alguém que o apresentou ao mundo. E esse alguém é nada mais nada menos do que Robert Parker, possivelmente o maior crítico de vinhos do mundo.

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Ele foi um dos maiores divulgadores dessa denominação de origem controlada e foi assim que o chateauneuf se tornou o símbolo que é hoje. Portanto quando você ver o chapéu do papa estampado em alto relevo numa garrafa de vinho tenha a absoluta certeza de estar diante de um colosso.

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Essa denominação é formada de um corte de várias uvas como a grenache (astro principal compondo cerca de 60-70%) e o resto formado normalmente por: cinsault, counoise, mourvèdre, muscardin, syrah, terret noir e vaccarèse.

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Amigos, eu perdi a foto que eu tirei da taça quando eu degustava esse vinho, então me perdoem, pois irei usar uma foto que não é minha aqui:

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Esse é um vinho vendido na faixa de R$350 e que vale cada centavo. Sente-se bastante o aroma de morango e de framboesa nele, bastante sedoso e redondo! O corte é formado pelas castas: 70% Grenache, 15% Syrah, 10% Cinsault, 5% Mourvèdre.

PREMIAÇÕES

Robert Parker 94

Jancis Robinson 17,5

Vinous 88-90

Wine Front 91

Bourgogne versus Napa Valley

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A próxima degustação foi um duelo entre um pinot noir top da Borgonha e um americano. Abaixo segue-se o detalhe de cada um desses vinhos:

Domaine Masse Père et Fils Givry 1er Cru 2014

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Representante mais do que clássico da Borgonha que custa por volta de R$400

Robert Mondavi Winery Pinot Noir 2009

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Como comentamos anteriormente, essa bodega é talvez a mais famosa dos EUA. Esse vinho custa em média metade do Francês (por volta dos R$200).

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Mais uma vez eu fui desafiado a provar quem vence essa batalha de titãs: um pinot noir da Borgonha ou dos EUA. No primeiro embate os EUA ganharam fácil (link). Será que dessa vez foi diferente?

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Dessa vez a vitória foi da França sem sombra de dúvida. Embora o americano tenha se mostrado um grande vinho e bem trabalhado, a França levou a melhor tanto nos aromas quanto no paladar. Nunca degustei um pinot noir tão delicado e bem feito na boca, extremamente aveludado!

Vinho Basco: Mendraka Txakoliña White 2016

Amigos, pela primeira vez temos um vinho muitíssimo díspar da grande maioria dos vinhos conhecidos no mundo. Estamos falando de um vinho do país basco (que na verdade pertence à Espanha embora tenha ganhado alta autonomia com o advento da constituição espanhola de 1978).

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Esse vinho é feito com a uva autóctone hondarrabi zuri e apresenta características próprias.

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Vinho de cor dourada belíssima. No nariz temos notas cítricas como maçã e pêra. Na boca temos um vinho macio e untuoso com um final levemente amargo.

A expressão máxima de Portugal e o descobrimento do Brasil: Pêra Manca

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Pessoal, hoje é o dia de falarmos de muitas lendas. Também devemos falar do vinho símbolo de toda a potencialidade portuguesa: o Pêra Manca. Hoje iremos degustar a versão branca dessa lenda.

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Assim como boa parte dos grandes vinhos já citados aqui no blog, ele tem a ver com tradição católica cristã europeia. De acordo com ela, o nome de Pêra-Manca deriva do toponímico “pedra manca” ou “pedra oscilante” – uma formação granítica de blocos arredondados, em desequilíbrio sobre rocha firme. Reza a história que a tradição do vinho Pêra-Manca remonta à Idade Média. Por volta de 1365, Nossa Senhora teria aparecido em cima de um espinheiro a um pastor. Alguns anos depois, foi edificado um oratório em sua honra e em 1458, dada a crescente importância do local como ponto de peregrinação, uma igreja. A posterior fundação de um Convento, que viria albergar a Ordem de S. Jerónimo seguiu-se-lhe. E, nos séculos XV e XVI, os vinhedos de Pêra-Manca eram propriedade dos frades do Convento do Espinheiro. Em 1517, os frades do Convento do Espinheiro foram obrigados a arrendar esses vinhedos – por ser muito dispendioso o seu trato – a Álvaro Azedo, escudeiro do Rei e a sua mulher, Filipa Rodrigues. Deles, fala D. João II, numa carta à Câmara de Évora.

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A história desse vinho é tão lendária que se confunde com a própria história do Brasil porque o próprio Pedro Álvares Cabral o transportou em suas naus quando chegou ao Brasil!

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Vamos degustar esse vinho com um Polvo à galega

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Realmente não nega ser um grande vinho porém esperava muito mais. Achei pouco encorpado e os aromas não estavam tão aparentes quanto vinhos até mesmo mais simples. Não fez jus ao preço e à sua fama!

Chablis e a lenda do chardonnay da Borgonha:

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Esse também é um dos exemplares que eu já venho com vontade de degustar há bastante tempo. É praticamente impossível pensarmos em vinhos da uva chardonnay sem nos lembrarmos de onde essa uva encontra sua expressão máxima: a Borgonha. Esse é um grande vinho que infelizmente custa muito caro no Brasil (R$ 400).

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Quem não se lembra da harmonização clássica das ostras com Chablis? Uma verdadeira maravilha!

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Esse vinho me levou a repensar todo o meu conceito da uva Chardonnay. Extremamente equilibrado mesmo sendo altamente mineral e ácido. Redondo e perfeito sendo embalado por aromas de frutas tropicais maduras como pêssego e lima com notas florais a lhe conferir um verdadeiro perfume. Muito melhor até mesmo que o pêra manca.

O vinho laranja: Tinaja Moscatel de Alexandria

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Se já não bastasse a imensa quantidade de diferentes aventuras postadas hoje, aqui vai mais uma extremamente insólita: degustar um vinho laranja. Garanto que é uma das mais estranhas sensações que você pode ter ao degustar um vinho, pois ele é produzido com uvas brancas mas não é branco. Possui taninos mas não é um vinho tinto.

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Dotado de uma maravilhosa cor dourada âmbar, é um vinho encorpado em que se sente bem a presença do tanino, pois o vinho laranja é um vinho feito de uvas brancas porém fermentado junto com as cascas.

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Apresenta aromas florais e cítricos no olfato enquanto que, no paladar, apresenta notas herbais. Bem excêntrico!

Degustação de T-Bone com dois clássicos de Bordeaux: Médoc e Pomerol

Amigos, já comentamos aqui no blog que entender a totalidade dos vinhos da França é uma tarefa por demasiado hercúlea (Acho que nem mesmo o próprio Hércules estaria apto para esse trabalho).

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Mas iremos comentar sobre provavelmente a região mais famosa do mundo dos vinhos: Bordeaux. Abaixo podemos ter uma ideia da infinidade de sub-regiões e de denominações diferentes:

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Possivelmente as duas grandes regiões são a região do Pomerol e a do Médoc. A primeira é consagrada por ser onde o lendário Pétrus é produzido. Infelizmente não é possível encontrar um desses exemplares no Brasil por menos de R$15 mil.

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Embora os vinhos de Pomerol nunca sejam classificados, o Pétrus é considerado um dos grandes vinhos de Bordeaux assim como outros Grands Crus do Médoc.

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Vamos começar com o Pomerol:

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Vinho Le Carillon de Rouget Pomerol 2011, provavelmente o mais próximo que se pode chegar de um Pétrus com um preço “pagável”. Vinho que custa aproximadamente R$ 500 e contém todo o potencial da região do Pomerol.

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Vinho de cor roxa viva lindíssima! Muita fruta presente nos aromas como ameixas, cassis e framboesa. Final levemente seco como boa parte dos Bordeaux.

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Vinho Château Patache d’Aux 2010 Médoc. Enquanto o de pomerol é praticamente só Merlot, esse daqui é um clássico corte bordalês (60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, 7% Cabernet Franc, 3% Petit Verdot). Mais estruturado do que o anterior com a presença maior de taninos e aromas fortes de frutas negras e de especiarias como a pimenta. É um vinho altamente gastronômico.

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Conclusão

Estudar sobre vinhos é relativamente fácil meus amigos. Basta comprar bons livros, um curso de aromas e beber muito! Au revoir!

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